sexta-feira, 10 de novembro de 2006

À conversa com...

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Henrique Sertã, 82 anos, as palavras são sempre poucas quando se fala de um homem como este. Nascido e criado na Landeira sempre se demarcou dos demais pelo carinho especial que tem pela terra que o viu nascer, a Landeira. Fundador do Futebol Clube Agricula Landeirense, hoje Sporting Clube da Landeira. Dinamizador da recuperação da Igreja da Nossa Senhora da Nazaré e sobretudo um dos responsáveis pela muita da informação documentada conseguida sobre a Landeira. Aqui fica o registro duma tarde de domingo á conversa com Henrique Sertã.

Sr. Henrique, conte-nos a História da Landeira, uma vez que foi dos primeiros a tomar a iniciativa de procurar saber a história desta Terra.

A Landeira é uma terra muito antiga, já no ano de 1200 há registros de ter passado por aqui, em serviço, um geógrafo árabe, chamado Edrici. Nessa altura já existia uma estalagem, que era onde pernoitavam pessoas que por aqui passavam e foi por essa rua, a Rua da Estalagem, que esse dito senhor teve que passar. As pessoas pernoitavam na Landeira porque este era o único local na zona que tinha casas.

A Landeira no início tinha apenas três ou quatro casas e dessas três ou quatro casas, foi criada uma loja, o que na altura se chamava a venda, que servia só essas casas. O rei D. João I, chamou os moradores dessas casas, das quais fez escritura apenas a uma delas. O dono da casa que o rei D. João I deu a escritura, chamava-se João Lourenço.

Porquê o nome Landeira?

Tem este nome por terem sido construídas as três ou quatro casas situadas na região do montado, região com muitos sobreiros. Mas quem chamava a Landeira de Landeira eram os ingleses, porque Landeira vinha de Lande, fruto dos sobreiros.

Porque é que a chamada Estrada dos Espanhóis é tão importante na história da Landeira?

Com o passar dos tempos, a Landeira cresceu e havia duas estradas do Litoral para o Interior do país, ambas passavam por aqui, onde existia essa dita estalagem, por onde passava toda a gente com transportes a cavalo. Deste modo a Landeira começou a ter uma encruzilhada, porque aqueles que vinham de Vila Franca, passavam pela Landeira para ir para Espanha. Vindo do lado de Lisboa, quem viesse de Vila Franca, do Montijo ou do Barreiro, para ir para o lado de Espanha, passavam por aqui obrigatoriamente.

Viessem de que lado fosse, tinham que passar pela Landeira, ou seja, quem partisse do Barreiro, fazia o trajecto para o lado de Espanha do seguinte modo: Barreiro, Landeira, Cabrela, Montemor, Évora, Elvas e Espanha. Por outro lado, quem viesse da Moita fazia o trajecto para o lado de Espanha, passando por Moita, Palmela, Landeira, Beja, Mértola, passava pelo Guadiana, Algarve, Andaluzia (Espanha). Estes eram os caminhos que passavam pela Landeira, com destino a Espanha. Foi o eborense Mário Sá que pôs o nome à hoje chamada Estrada dos Espanhóis.

Dizem que o rei D. João II pernoitou aqui na Landeira. É verdade?

Passou por aqui o rei D. João II. Este tinha um cunhado, o Duque de Viseu, que era primo e cunhado ao mesmo tempo. O D. João II partiu de Setúbal com destino a Alcácer do Sal e passou pela Landeira, uma vez que veio por terra de charrete e cavalos. Quando o rei já ia de regresso, de Alcácer para Setúbal, ele era para ter ido pelo mar, mas foi avisado que o primo e cunhado Duque de Viseu o queria matar quando ele saísse da barca. Então, o rei voltou por terra e passou outra vez aqui pela Landeira, mas não dormiu aqui, como muita gente pensa. Quem dormiu aqui foi a Rainha mãe de D. Sebastião.

Qual a data de construção da Igreja de Nossa Senhora da Nazaré, a construção mais antiga do concelho?

Não se encontra em nenhum lado uma era concreta da construção da igreja da Landeira. Dizem que terá sido mais ou menos em 1400, porque as igrejas deste modelo, desta planta, foram todas feitas na era de 400. Em várias freguesias existem igrejas do mesmo estilo da Landeira. Quando ruíam pedaços da igreja, as pessoas não faziam nada. Hoje, só resta a fachada da igreja correspondente àquela época, o resto foi tudo reconstruído. Dentro da igreja existem azulejos da era manuelina.

A Nossa senhora da Nazaré, foi reconstruída duas vezes. A primeira foi no ano de 1906 e esta última vez, foi quando a igreja foi restaurada e a Santa também o foi, isto no ano de 1980. Da primeira vez que se restaurou a Igreja, para arranjarmos dinheiro suficiente levou cerca de dez anos. Eu bati à porta de toda a gente da aldeia, para eles me darem o que podiam. Até que eu fui à casa de um senhor, o fazendeiro do Zambujal, que logo se disponibilizou para dar o que os outros não podiam dar. Entretanto, veio o 25 de Abril e foi o que veio ajudar a Igreja e a Landeira. Foi no ano de 1976, que eu, as minhas duas filhas e com o Henrique Rosa, o Luís Caramelo e o Manuel Melo, fomos até Cabrela e fizemos um peditório, na altura deram-nos 25 escudos.

Como é que a Nossa Senhora da Nazaré se tornou padroeira da Aldeia?

Ninguém sabe como é que a Nossa Senhora da Nazaré apareceu na Landeira nem como ela começou a ser a padroeira da aldeia. Quando eu era rapaz, para mim todas as Santas eram a Nossa Senhora. Eu lidei muito com os padres, mas nunca estudei para ser padre, mas um dia, eu falava com o padre José Maria e perguntei-lhe qual a razão de cada terra ter uma Santa como padroeira. Então ele explicou-me que uma pessoa com genica e que se ajeitasse a fazer curativos com ervas ou coisas do género, quando morriam eram consideradas Santas, dando-lhes o nome das ditas curandeiras.

A fonte, a igreja e o cemitério têm algo em comum?

Naquele tempo, o que havia para as mulheres lavarem a roupa era o chamado pego, que era na fonte velha. A fonte velha e o cemitério foram construídos no mesmo ano, tem a mesma idade, foi no ano de 1897. A Landeira pertencia a Alcácer do Sal quando estas duas coisas foram construídas. Até lá, as pessoas eram enterradas no cemitério à volta da igreja. O crânio que se encontra dentro da igreja foi encontrado quando se canalizou a água junto desta.

As pessoas entendidas dizem que a caveira era de uma senhora talvez vinda desse cemitério à volta da igreja. Foram encontradas, também, várias ossadas no local.

Landeira, terra lusófona, o que me diz disto?

(RISOS) Existe o caso do Sr. Grilo entre mais uma mão-cheia deles. Chamavam-no assim por ele ser negro, semelhante a um grilo na cor. Um senhor de apelido Telha, disse-me que os pais do Grilo eram de Cabo Verde. Eles vieram para Portugal, como vieram muitos mais homens, para o trabalho do arroz, na Ribeira do Sado, em Alcácer do Sal. Foi o Marquês de Pombal, no reinado de D. José, que mandou vir a mão-de-obra de Cabo Verde, pois ao longo do rio Sado, morreram quase todos os trabalhadores com a Febre Tifóide e Meningite. Como existiam correntes de ar muito quentes no Sado, o clima era igual ao do país dos Cabo Verdianos. Como estavam habituados a este clima, aguentavam mais trabalhar nestas condições.

Na minha juventude, morreram muitas crianças, filhos de trabalhadores do arroz, com doenças. Tantos morreram que tiveram que criar u
m talhão no cemitério só para aquelas crianças. Este senhor Grilo, desceu de Alcácer para Setúbal para a Landeira e aqui ficou. Mais tarde veio a casar-se com a senhora Maria Custódia, que na altura era viúva onde nasceram seis filhos. Esta é uma família muito antiga da Landeira.

Espero que tenham gostado, na continuação deste mês mais postagens acerca da Landeira e das suas gentes serão publicadas. Muitas surpresas…

Ao Sr. Henrique Sertã o meu profundo agradecimento por esta tarde muito bem passada e acima de tudo por tudo o que fez pela Landeira, estas palavras devem ser tambem as palavras de todos os Landeirenses.



“Minha Terra”

“ É a minha terra a Landeira
Que tem a sua ribeira
Que vem do Sado a Cabrela
Esta aldeia tão catita
Cada vez está mais bonita
Por isso gosto mais dela...
Tem suas ruas empredadas
As casinhas bem caiadas
À volta umas florzinhas
Com os largos enfeitados
Os rapazes bem casados
Com as moças bonitinhas...
Também tem supermercados
E dois cafés asseados
Uma taberna, com fé
Ó minha querida Landeira
Tens por mote a Padroeira
A Senhora da Nazaré...”

Henrique Sertã, 1986

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quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Os plátanos da minha rua

Os plátanos, cuja classificação científica nos diz pertencerem ao reino plantae; divisão – magnoliophyta; classe da magnoliopsida; ordem dos proteales; família dos platanaceae e género dos plátanus, são umas árvores muito simpáticas. Pudera! com uma linhagem destas, outra coisa não seria de esperar.
Não sei bem donde é originária, se da Eurásia se da América do Norte, mas sei que compreende dez espécies e vários híbridos e os exemplares mais antigos datam do Cretácico, 115 milhões de anos. ( Li na Wikipédia)
Os plátanos como árvore de ornamentação são muito apreciados.
Chegam a atingir trinta metros de altura e a sua copa tem uma grande envergadura. É a árvore por excelência dos parques de automóveis, tal como na minha rua, de tal maneira que no Verão, os lugares de estacionamento estão todos ocupados pelos turistas que lá deixam o pópó todo o dia à sombra.


Como os plátanos crescem muito, têm de ter umas raízes muito grandes, primeiro porque para se agarrarem ao chão precisam de raízes fortes, e segundo porque para darem de beber àquelas folhas todas têm de ir à procura da água, onde ela houver.
Como aqui no Alentejo não chove durante o Verão (não sei se já haviam reparado nesse fenómeno...) e os passeios e o alcatrão não deixam a água entrar no solo, as raízes vão crescendo, crescendo e vão furando tudo à sua passagem, à procura desse bem cada vez mais escasso, que é a água. Então o que é que acontece? Partem os muros, levantam os pavimentos dos quintais, entram pelos canos de esgoto, etc…e depois entopem tudo…e o pessoal fica chateado…claro que fica, chateado!
Quando chega o Outono é que verdadeiramente se aprecia a beleza dos plátanos.
É no Outono que caiem as folhas (outro fenómeno que não sei se já haviam reparado...).
São milhares delas que formam um tapete nos passeios, que se espalham pelos quintais, entopem os ralos, e todos os dias vão caindo, caindo, parece que nunca mais acabam de cair, as chatas!
Quase todos os dias de manhã aparecem as cantoneiras municipais (antigamente chamadas as varredoras da câmara), uma vem de vasculho a outra traz um motor às costas e um canhão de ar, e atrás delas vem um carro, com umas vassouras rotativas, que varre e aspira as folhas que as cantoneiras vão empurrando para a estrada.
O pessoal que aqui mora não consegue dar conta de tantas folhas, e em vez de as apanhar para o latão do lixo, (há que admitir que dá uma grande trabalheira), passa o dia a varrer as folhas para a estrada. (Porque a limpeza da rua é responsabilidade da Câmara…percebem?).
A coisa que me faz mais confusão nesta história dos plátanos, são as folhas. Já as enterrei, já as meti um mês dentro de água, e elas não apodrecem. Parecem de plástico. Disseram-me que quando a árvore veio para cá não trouxeram a bactéria que as decompõem. Alguém me é capaz de explicar o porquê? Agradecia. É que com tanta coisa que conseguiram trazer, e afinal de contas, nem uma simples bactéria...
E pronto(s), já disse tudo sobre as árvores da minha rua, agora digam vocês qualquer coisinha.
Ah! Mas já me esquecia do principal.
Que nunca passe pela cabeça dos senhores da Câmara Municipal substituírem os plátanos por outras árvores que não sujem tanto, que não rebentem com os quintais e entupam os esgotos.
Aí, ia eu ficar chateado…claro que ia ficar chateado!

MouTal

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segunda-feira, 6 de novembro de 2006

"A todo o vapor"

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COM A CHEGADA DO CAMINHO DE FERRO, VENDAS NOVAS DESENVOLVE-SE A “ TODO O VAPOR “

Comboio a vapor!... o grande avanço tecnológico em matéria de transportes terrestres, de meados do século XIX…

O caminho de ferro trouxe um contributo decisivo ao desenvolvimento de Vendas Novas, então aldeia já com alguma relevância pela sua situação geográfica, ponto de passagem quase obrigatório dos caminho de e para sul da capital.

A PRIMEIRA INFLUÊNCIA POSITIVA
Curiosamente, o caminho de ferro fez-se sentir de modo positivo no povoado, pela primeira vez, quando D. Pedro V recusou ceder o “ Palácio das Passagens “ (actual sede da E.P.A.) à Companhia de Caminho de Ferro que nela se pretendia instalar. O Rei, por sua vontade e petição dos vendasnovenses, que queriam para o Palácio uma mais nobre utilização, decidiu instalar nele (Portaria de 18-03-1861), a unidade militar que é hoje a E.P.A. (que, ela própria, viria a ser um dos mais importantes factores de desenvolvimento de Vendas Novas.


A LINHA DO SUL É CONSTRUIDA ATÉ VENDAS NOVAS
O documento mais antigo que conhecemos sobre a Linha do Sul é a “consulta” proferida pelo Conselho de Obras Públicas, em 19-04-1854, sob proposta do marquês de Fialho e de Eugénio de Almeida, representantes da “Companhia dos Caminhos de Ferro ao Sul do Tejo”, que se propunha construir a linha de Aldegalega (Montijo) a Vendas Novas. A companhia assinou em 24-07.1854 o contrato de construção dessa linha e sua exploração, depois de transferida a origem da mesma para o Barreiro, votando o Parlamento a confirmaçã
o do contrato nesse mesmo dia (Carta de Lei de 07-08-1854). O concurso para a construção foi adjudicado com a subvenção de 7 Contos e 900 mil Reis por quilómetro, à sociedade de Tomás Ramos, tendo a linha a bitola de 1,44m. Em Maio de 1858 os comboios já circulavam até Bombel.

UMA EPIDEMIA DE FEBRE AMARELA
Com a obra da linha perto de Vendas Novas, surgiu entre os trabalhadores uma epidemia de febre amarela. Para os tratar foi improvisada uma enfermaria no “Palácio das Passagens”… mas os trabalhos não foram interrompidos…

AS ACÇÕES DA COMPANHIA DO CAMINHO DE FERRO
Para financiar a sua actividade, a “Companhia dos Caminhos de Ferro ao Sul do Tejo” emitiu 14.000 acções nominais (em francês, português e inglês). Recordamos o registado numa
delas: “Companhia dos Caminhos de Ferro ao Sul do Tejo – caminho de ferro Barreiro – Vendas Novas com ramal para Setúbal – capital de 1.4000.000 Reis, dividido em 14.000 acções de 100 mil Reis – este título de 100 mil Reis, pertence ao Ilmo. Sr. Francisco Melo Soares de Freitas. Por conta tem pago até esta data 80%, assim tem recebido os juros vencidos até esta mesma data. O possuidor deste título tem direito aos juros e lucros que lhe pertencem, conforme o Artº 14º dos Estatutos da Companhia – Lisboa, 31-12-1858 – os Directores: Costa Ramos, António Gomes, João Pedro Costa”.

É INAUGURADA A LINHA BARREIRO – VENDAS NOVAS
Em “Correio Português – Um Guia Sentimental”, Francisco Viegas e Maurício Abreu, referem: “Em 1861 inaugurou-se a linha Barreiro – Vendas Novas… só em 1863 a linha do sul arrancou até Évora e no seguinte até Beja…” A linha até Vendas Novas teve inauguração oficial em 23-01-1861 e terá sido então também inaugurada a Estação de Vendas Novas.

A VIAGEM DE COMBÓIO BARREIRO – VENDAS NOVAS, NOS SEUS PRIMEIROS TEMPOS…

Para os viajantes que vinham da capital, a travessia do Tejo, nesses tempos pioneiros, era demorada. O barco a vapor que levava os passageiros ao Barreiro não podia atracar – não havia cais adequado – e fundeava a alguma distância. Fazia-se o transbordo dos passageiros, bagagens e mercadorias, para a margem do rio em pequenos barcos. Com mau tempo tudo se complicava… Depois tomava-se finalmente o comboio a vapor… a viagem Lisboa – Vendas Novas fazia-se “no tempo incrivelmente curto – dizia-se na época – de cerca de quatro horas e meia… se tudo corresse pelo melhor…

A LINHA AVANÇA; MAS EM BITOLA DIFERENTE…
O prolongamento da linha de Évora e Beja – proposta de lei do governo, de Junho de 1858 – foi aprovado pelo Parlamento e esse prolongamento foi contratado com J. Valentine, representante da “Companhia Inglesa” de Mengles, Chapman, Netman e Towsend. Mas a nova linha foi construída na bitola de 1
,66m, imposição de D. José Salamanca, por ser essa a bitola espanhola. Com a bitola de 1,44m do Barreiro a Vendas Novas e de 1,66m a partir daqui, era necessária a mudança de comboio na estação de Vendas Novas, com transbordo de passageiros, bagagens e mercadorias, tornando-a numa das mais importantes ao sul do Tejo… Em 1867 um litígio entre o Estado e a Companhia levou o tribunal arbitral a dar razão ao Estado, que entrou na posse do património da companhia inglesa por 2.376 contos e 653 mil Reis. Só então foi unificada a bitola da linha…

QUAL A PRIMITIVA LOCALIZAÇÃO DA ESTAÇÃO DE VENDAS NOVAS?
Existiam indicações que situavam a primitiva estação de Vendas No
vas na Boa Vista… teria sido assim?... Escreve em 23-09-1987, Rosa Marques, Vendasnovense e ferroviário: “O caminho de ferro do Setil a Vendas Novas só aqui chegou em 1904, quando se fez o apeadeiro do Vidigal. Morreu o rei, fechou o apeadeiro. Isto contado por pessoas desse tempo. Porém é do meu tempo que a sede da Casa de Bragança era na na rua da Estação de Caminho de Ferro, com costas para o quartel da E.P.A. Era dali que partiam as locomotivas para a Boavista, esperar o rei, para o conduzir ao palácio do Vidigal, pois era na Boavista que o comboio parava para desembarcar a família real…Depois de construídos os apeadeiros de Bombel e Vidigal acabou esse serviço…”

Assim, a estação de Vendas Novas sempre se terá situado no local onde hoje se encontra… havia até a chamada “rotunda das máquinas”. Mas quando o rei e sua família se dirigiam ao Vidigal, existia um local mais discreto, na Boavista, que servia de “estação” ou “apeadeiro real”, longe de eventuais olhares da população e de eventuais demonstrações de desagrado para com a monarquia…

A CASA DE BRAGANÇA E A LINHA DO SUL
Quando da construção da Linha do Sul, o rei D. Luís, que administrava a Casa de Bragança, de seu filho, menor, Duque de Bragança e futuro rei D. Carlos I, como a referida casa era um morgado, via-se impossibilitado de oferecer o terreno para a linha, entre Bombel e Vendas Novas. Procedeu-se, então, a uma permuta e o terreno foi cedido em troca da construção pela companhia, da estação de Bombel, que iria servir a “sereníssima casa”.

Em 1904, quando foi construída a linha do Setil, sendo já D. Carlos, rei e administrador da sua casa, verificou-se situação idêntica. Nessa altura os terrenos foram cedidos em troca da construção, pela companhia, nas propriedades da Casa de Bragança, de várias passagens de nível (algumas com casa e guarda de linha), como a dos Caminhos e Vale de Boi, Vale de Pegas, Bica Fria e Quinta do Pessegueiro. A companhia teve também de construir o apeadeiro do Vidigal, para serviço da Casa de Bragança, e um cais na estação de Vendas Novas para escoamento dos produtos agrícolas da “sereníssima casa”.

A LINHA DO SETIL

Com o comboio a chegar a Vendas Novas e depois a seguir para o sul, a terra entra numa fase de grande desenvolvimento. Muitas empresas, em especial da área corticeira, interessam-se pela aldeia, pois o caminho de ferro era um meio rápido e fiável para a recepção de matérias primas para as suas fábricas e de exportação de produtos manufacturados para o país e estrangeiro, dada a proximidade e ligação aos portos de Setúbal e Lisboa.

Essas empresas começaram a instalar as suas fábricas em Vendas Novas, originando um surto industrial sem precedentes na região. Com as fábricas (tal como acontecera com a E.P.A. com a vinda dos militares) vieram os dirigentes, os técnicos, os operários e seus familiares…alguns constituíram mesmo as suas famílias na aldeia… a população aumentou rapidamente, bem como o comércio local. Abriram-se novas ruas, construíram se novas casas. Surgiram as primeiras colectividades, incrementou-se a instrução… surgiram novos hábitos… Vendas Novas, embora de modo desordenado e com muitas carências (não havia apoio suficiente do município – Montemor), tornou-se um importante centro industrial e comercial ao sul do Tejo…

CAMINHO DE FERRO E VENDAS NOVAS – UMA COEXISTÊNCIA DE 150 ANOS…
Passou o tempo… o caminho de ferro continuou a servir Vendas Novas… e se a terra beneficiou com o advento do comboio, também alguma coisa deu à exploração do caminho de ferro… Uma situação geográfica privilegiada para estação terminal da linha e depois ponto de transbordo entre caminhos de bitolas diferentes…e continuou a ser estação importante de entrada e saída de passageiros e mercadorias, de abastecimento das locomotivas em água e carvão e de pequenas (algumas talvez maiores) reparações de material rolante… Vendas Novas acolheu também, de braços abertos o pessoal ferroviário – dos chefes de estação ás guardas de passagem de nível – e as suas famílias, muitas constituídas no povoado… a todos Vendas Novas fez sentir que estavam na sua terra e em sua casa…

ARTUR ALEIXO PAIS
14-10-2006

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sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Imprensa local em Vendas Novas: que realidade?

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Imprensa local na generalidade

No total, publicar-se-ão regularmente cerca de mil jornais em Portugal, embora apenas entre 600 a 700 estejam registados no Instituto da Comunicação Social. Os jornais, especialmente os de carácter local, assumem um importante papel em termos de informação de proximidade e são, além do mais, uma fonte de primordial importância e de transmissão de informação credível, que muito contribuem para um melhor (auto-re)conhecimento das comunidades que servem. A isso acresce o facto de os jornais locais, no seu todo, serem mais lidos que a imprensa nacional.

Muitos são os obstáculos com que actualmente se deparam os jornais locais. Desde logo, o facto de o seu desenvolvimento estar algo limitado atento o seu reduzido âmbito geográfico e, na maior parte dos casos, a consequente dimensão da comunidade que servem e do respectivo público-alvo. Em termos futuros, o panorama também não se adivinha famoso, em face da recentemente anunciada “redução drástica do porte-pago”, o que vai obrigar muitos jornais locais a encontrarem alternativas ao financiamento do custo associado à sua distribuição. Esta realidade, juntando o facto de termos em Portugal baixos índices de leitura de jornais, não fazem adivinhar tempos risonhos para a imprensa local, a qual vai ter que se confrontar com verdadeiros desafios de inovação e criatividade empresarial.


Evolução recente da nossa imprensa local

Quando há cerca de 23 anos cheguei a Vendas Novas, só existia um jornal local: o “Notícias de Vendas Novas”. O qual foi publicado ao longo de vários anos, creio que de forma ininterrupta. Tanto quanto me consegui aperceber, a sua existência devia-se no essencial a alguns, poucos, vendasnovenses que nele encontravam um misto de teimosia e orgulho, para que Vendas Novas continuasse a desfrutar de imprensa local. Era então, e foi-o durante muitos anos, o único órgão de imprensa escrita existente em Vendas Novas. O seu director era na altura o Sr. Cadete Madeira, tendo posteriormente sido substituído pelo Sr. Lino Alves, aos quais aproveito aqui para enviar amigas e cordiais saudações.

Há 14 anos, começou a publicar-se a “Gazeta de Vendas Novas”. Durante bastante tempo, estes jornais coexistiram localmente, o que seria ou deveria ser, por si só, uma factor de regozijo para uma comunidade da dimensão de Vendas Novas. E constituiria, em minha opinião, um factor acrescido para que se conseguisse manter ambas as publicações em actividade. Infelizmente, por motivos que desconheço, tal não aconteceu. Pelo que sei, o mentor e incentivador do nascimento da “Gazeta de Vendas Novas” foi o Sr. Cadete Madeira, que durante algum tempo foi também seu director. O director actual da Gazeta de Vendas Novas, e desde há cerca de 11 anos, é o Sr. Artur Aleixo Pais, a quem aproveito igualmente para enviar as minhas cordiais e amigas saudações e felicitar pelo seu continuado esforço em prol da manutenção deste periódico, juntamente com toda a sua actual equipa.


Desafios à imprensa local em Vendas Novas

Do que me é dado observar, e esta é apenas e tão só uma opinião pessoal, a “Gazeta de Vendas Novas” sofre de certas limitações que acabam por limitar o seu desenvolvimento, sem que isso se deva a falta de empenho dos seus responsáveis. Uma das dificuldades estará assente num relativo distanciamento que ainda persiste entre o jornal e a comunidade local. Desde logo porque, apesar de continuados esforços levados a efeito pela actual equipa, persiste uma evidente dificuldade em conseguir colaboradores para ali publicarem textos de sua autoria. E ainda porque, apesar de em cada uma das edições quinzenais existir um espaço à disposição dos partidos políticos locais para ali publicarem conteúdos de sua autoria, o certo é que essa facilidade parece não estar a ser aproveitada. Uma terceira ordem de razões para este relativo afastamento entre o jornal e a população que serve, e eventualmente a mais visível mas não a mais importante, estará relacionada com o próprio formato e a tipologia dos conteúdos publicados.

Sobre a questão da dificuldade em aumentar o número de colaboradores, ou melhor, da falta de predisposição para que as pessoas colaborem no jornal, o que persiste apesar da disponibilidade sucessivamente manifestada pelo seu director, várias coisas se poderiam dizer. Mas o mais importante será realçar o facto de tal se dever, no meu entendimento, a receios os mais diversos em aceitar publicar opiniões ou outros conteúdos de forma assumida e responsável. E não tanto à eventual ausência de capacidades, muito pelo contrário. Vejo esta realidade como fruto de uma exagerada acomodação e um acentuado sentimento de “deixa-andar”, que acaba por limitar a intervenção cívica e o exercício da cidadania de uma parte significativa da população de Vendas Novas.

Sobre o formato do jornal e o tipo de conteúdos publicados, reconheço sentir dificuldade em manifestar-me objectivamente, o que se deve à minha impreparação para este tipo de análise mais técnica, no caso específico em apreciação. Penso, no entanto, que a equipa gestora do jornal fará bem em ouvir, analisar e equacionar algumas das críticas que lhe têm sido dirigidas quanto a esse particular, designadamente as que respeitam à paginação, aos tamanhos de letra utilizados, à estrutura do próprio jornal (no que respeita à divisão dos espaços e da informação pelas diversas páginas) e ao espaço dedicado a cada tipo de conteúdos publicados.

Quanto á linha editorial seguida pela “Gazeta de Vendas Novas”, noto uma evidente preocupação em mantê-lo um jornal isento e relativamente neutro. Esta isenção vejo-a na perspectiva de se manter equidistante em relação aos partidos políticos locais, o que de certa forma tem conseguido. Já a neutralidade, tenho-a como uma determinada forma de lidar com assuntos polémicos ou controversos. No caso da Gazeta de Vendas Novas, tal neutralidade tem-se manifestado por uma tendencial ausência de publicação dessas questões de carácter local.

Sem querer de forma alguma por em causa o caminho seguido ou melindrar quem tem essa responsabilidade, era só o que faltava e nem isso está nas minhas preocupações, gostaria de salientar o seguinte: se é perfeitamente justificável, a bem da sua credibilidade e da preocupação pelo futuro do jornal que a isenção seja, em si mesma, um bem a preservar, já o mesmo não se passa com este tipo de abordagem ao carácter de neutralidade. No entanto, compreendo as razões para esta situação e saliento que, apesar de tudo, revejo no jornal, desde o princípio, a preocupação em
reger-se por princípios de verdade, de respeito e credibilidade. Em resumo, se ganha em manter a sua isenção, perderá em querer ser neutro, pois corre o risco de ser pouco interventivo em relação ao que são alguns dos assuntos relevantes da comunidade. Mas como disse, compreendo as razões e respeito o mais possível o caminho escolhido.


Reconhecimento do importante papel desempenhado pelo nosso jornal local

Por último, quero deixar aqui bem expressas mais duas coisas. Em primeiro lugar, manifestar um grande sentido de respeito e reconhecimento por quem se dispõe a administrar e/ou gerir um jornal local, como é o caso da Gazeta de Vendas Novas. Por todos os motivos, mas especialmente por desempenharem um relevante papel para a auto-estima dos vendasnovenses, além de se constituírem como possível pólo de união da comunidade. Neste sentimento acho por bem incluir todos aqueles que, de alguma forma, contribuem para a elaboração e manutenção do jornal. A isto acresce a evidência de que o nosso jornal local não navega em terrenos férteis em facilidades, tantas são as críticas manifestamente injustas que lhes são dirigidas, a juntar à já de si relativamente débil estrutura que o suporta, tanto em termos financeiros como de instalações, equipamento e recursos humanos. Vale-lhe a vontade e a perseverança de quem lhe dá vida, ainda por cima de forma totalmente gratuita.

Em segundo lugar, que a existência de um ou mais jornais locais é, em si mesmo, um bem para toda a comunidade. Um jornal pode e deve ser um bom veículo de transmissão de diversos tipos de informação, especialmente informação de proximidade, um meio privilegiado de divulgação aos mais diversos níveis e uma forma de potenciar a abordagem e discussão de questões pertinentes para a comunidade que constitui o seu público-alvo. No qual não se poderão esquecer os vendasnovenses que vivem e trabalham no estrangeiro e para os quais a Gazeta de Vendas Novas constituirá uma óptima forma de manter a ligação à sua terra.

Por tudo isso, tal deveria conduzir a que os jornais existentes (hoje, apenas um) fossem acarinhados por todos os vendasnovenses. Sob pena de corrermos o risco de um dia destes deixarmos de ter imprensa escrita no concelho. O que seria extremamente negativo para Vendas Novas.

João Fialho
02.Nov.06

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quarta-feira, 1 de novembro de 2006

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... lido no "Alentejanices":
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"Os weblogs não destroem as publicações locais, mas divulgam notícias que não cabem naquelas, muitas vezes por estarem comprometidos politicamente com o poder local"

"Os bloggers, com a sua discussão própria, conseguem promover e fortalecer a comunidade local, despertar consciências e intervir civicamente na comunidade de uma forma assertiva e eficaz"


Catarina Rodrigues - "Blogues regionais como espaços de cidadania e participação"

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sábado, 28 de outubro de 2006

O elogio da sensatez (parte II)

.Em 18-10-2006, deixei aqui um alerta para a necessidade da C.F. da Igreja de Santo António e a nossa Câmara Municipal se entenderem de vez sobre a requalificação de todo aquele espaço que circunda a dita Igreja.

Embora por confirmar, quem passou hoje pelo local, ficou com a sensação que os serviços municipais já encetaram os trabalhos de pavimentação dos passeios, no perímetro delimitador do terreno da Igreja.

Adivinha-se que esta obra uma vez concluída, acentuará pelo contraste, ainda mais, a necessidade das duas partes se sentarem à mesa das negociações, e encontrarem uma rápida solução para o diferendo que as separa. O problema existe e irá prevalecer até que haja cedências dos dois lados.

Enquanto isso, os moradores mais próximos já têm alguns motivos para sorrir. E eu, que não acredito em coincidências, apraz-me registar, pela segunda vez em menos de um mês, que tenho razões suficientes para deixar aqui um novo elogio público à sensatez dos responsáveis pelo pelouro. Afinal, o primeiro passo já foi dado.

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Poeta Jodro: "Poesia Campo em Flor"

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Teve lugar esta tarde, no Auditório da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo em Vendas Novas, o lançamento de um Livro de Poemas do poeta "Jodro" - João Metelo Grazina. Esta obra, editada pela Gazeta de Vendas Novas, constitui o Volume II da obra poética de Jodro, a que o autor deu o título "Poesia Campo em Flor".

No resumo biográfico do autor constante nesta obra, pode ler-se:
João Metelo Grazina nasceu em Alter do Chão em 23/3/1934. Viveu em Vendas Novas dos 6 aos 8 anos de idade onde fez a 1ª e 2ª classes, regressando á terra de origem e aí continuou os estudos. Cumprido o serviço militar, empregou-se em Lisboa como funcionário público e depois bancário, fixando-se definitivamente em Vendas Novas reformando-se nessa profissão. (...) Colabora também na "Gazeta de Vendas Novas" graciosamente, com trabalho e poesia.

O seu pseudónimo poético é uma prova de amor pelos pais, já falecidos, que se chamavam Joana e Pedro, aos quais foi buscar a primeira sílaba do nome da mãe e a última do pai que formaram Jodro. Desde criança que vive seduzido pela poesia, tendo lido os grandes poetas portugueses, sendo Camões e Bocage os seus grandes ídolos."

António Maria Viegas de Carvalho, no prefácio desta obra, referencia o poeta como de "índole humanista", ao afirmar:
João Metelo Grazina - o Poeta Jodro - depois da publicação do seu primeiro livro - A Poesia como sei e gosto - põe ao serviço da comunidade um novo livro, onde reforça a sua índole humanista, social e de amor pelos outros, numa afirmação que cada poeta faz, a seu modo, da visão do mundo interior, das suas experiências pessoais, das suas alegrias e angústias.

Artur Aleixo Pais, na sua Nota Introdutória, defende que João Metelo Grazina é uma figura já sobejamente conhecida, pela qualidade da sua poesia, em Vendas Novas, no concelho ... e não só. (...) é um autodidacta com grande sensibilidade pelas coisas da Natureza, que capta em "instantâneos" da vida de todos os dias. É também, sem qualquer dúvida, um humanista, focando temas como a mulher, a mãe, a criança e a sua inocência, o amor, o carinho, a afectividade, que tantas vezes faltam a toda a humanidade.

Roberto Joaquim Candeias, por seu lado, deixa-nos uma nota muito pessoal a propósito de "O Homem ... O Poeta":
... observo com agrado, a maneira de estar na vida deste Ser Humano sensível às coisas que o rodeiam e que ele põe com bastante evidência na sua poesia. A sua sensibilidade e inteligência muito acima da média, está patente no seu primeiro volume (...) e agora, neste segundo volume, reforça a sua maneira de fazer poesia humanista e social, que enriquece a nossa cultura.


TAMBÉM A ALMA É NATUREZA

Na vida as pessoas aparecem
Por magia da natureza
A concebê-las com sábia destreza
Das mãos divinas sublimes obras florescem

E as põe pela Terra a andar
E de raciocínio as privilegia
Para assim as superiorizar
A tudo o que omnipotente cria

E também a fala lhes concede
Para com ela poderem exprimir
O que na vida presente sucede
Passado e futuro a discutir

E corações dentro o peito entalha
Vocacionando-os para o amor
Mas por vezes o ódio neles se emalha
Adulterando-lhes o doce sabor

A alma que em todos arde decidida
A estimular ir sempre mais além
Em luta pela complexa vida
É a natureza que a forma também

João M. Grazina (Jodro)
(não incluído na obra agora editada)

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sexta-feira, 27 de outubro de 2006

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Ao que parece, as nossas cegonhas já iniciaram o regresso a Vendas Novas.
Hoje pela manhã, em alguns dos ninhos que têm estado vazios, já lá estavam os seus (novos) habitantes. Veremos se é mesmo para ficar ...

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quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Rotundas Perigosas ou Condutores Distraídos?

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Como é do conhecimento geral dos Vendasnovenses as rotundas da cidade deixam muito a desejar. Quem por lá circula diariamente decerto já se arrepiou com as “razias” que são feitas aos condutores que nelas circulam, umas vezes como espectadores outras como intervenientes. Desta vez calhou-me a pior parte, a de interveniente.

Vou apenas falar da rotunda perto da Santa Casa da Misericórdia, as outras nem vale a pena falar porque padecem do mesmo defeito e algumas conseguem ainda estar bem piores e mais perigosas. Não me parece a mim, que sou apenas um cidadão que não percebe minimamente de construção de rotundas, que a dita cuja seja uma obra de referência. Esteticamente até está agradável com aquele repuxo no centro e com aquele “passeio” que a circunda, o pavimento (a parte alcatroada) já tem alguma ondulação fruto do muito tráfego pesado e não só, que por ali passa todos os dias. Quem entra em Vendas Novas é natural que desfrute desta obra claramente direccionada ao turismo, para em seguida sofrer um arrepio na espinha porque passou a rasar um outro condutor que queria ir na direcção da Santa Casa. Desta vez calhou-me a mim querer ir naquela direcção e o arrepio que deveria ter sido na espinha foi na porta traseira do meu automóvel. Eu até já achava estranho tanta testa franzida, tanto arrepio e tantas razias sem levar uma “pantufada”. Depois é a velha máxima: “casa arrombada trancas á porta”, decidi hoje que muito dificilmente irei sair naquele sentido novamente. Existe uma alternativa por detrás do Lidl para o acesso á Santa Casa, local onde me desloco diariamente, sendo assim e assim sendo: Problema Resolvido, pelo menos para mim e pelo menos naquela rotunda.

Mas agora reparo que o carro até me faz falta, preciso dele para trabalhar. O estrago não foi grande, ainda bem, mas a porta empanou e como o tempo está chuvoso e eu não tenho garagem, no mínimo alem da porta empanada amanha de manha tinha condições para um aquário. Mas como é costume do bom Português afirmar que “até teve sorte”, o carro ficou na oficina e o arranjo ficou logo pago pelo condutor que reconheceu a sua culpa, e até já arranjei “boleia” para ir trabalhar amanha. Estão a ver, até tive sorte! Apesar do incomodo.

Mas há quem não tenha essa sorte e é nessas pessoas que utilizam aquela rotunda que devemos pensar, o meu problema está resolvido e a rotunda “rifada” mas não deixo de manifestar o meu desagrado em relação a este problema. Outros poderão vir a ter maiores incómodos e ao contrário do meu caso, ficarem sem transporte para irem trabalhar, o que já é um grande transtorno. A rotunda não prima pela perfeição, está muito longe disso, no entanto está sinalizada e a culpa nunca é da rotunda mas sim de quem bate nos outros que lá andam dentro.

E agora? É a rotunda que está perigosa ou são os condutores que vão distraídos? (vá lá saber-se com o quê ou porquê!)

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quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Bifanas de Vendas Novas: uma instituição regional?

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Porque há tanta procura pelas Bifanas de Vendas Novas ? A resposta é simples: porque são bués boas! Bem, dirá o leitor, mas essa característica por si só não garante que um produto se consiga impor no mercado, pois não? Tem toda a razão, o que não falta são exemplos de bons produtos, com evidente qualidade, e que não tiveram êxito. E de boas ideias de negócios que se iniciaram com elevadas expectativas para, passado pouco tempo, terem de fechar portas. O que diferencia, então, o caso das nossas bifanas? Vamos lá tentar perceber.


Quando vim trabalhar para Vendas Novas (há mais de 20 anos), vivi alguns meses em casa do Sr. Costa e da Dª Joaquina, ali ao lado do Café Boavista - o mais antigo neste negócio, o qual pertencia ao Senhor Cardante (pessoa que muito estimava) e à sua esposa. E foi nessa altura que descobri este verdadeiro pitéu e me tornei consumidor reincidente ao longo de todos estes anos. Passou muito tempo em que apenas existia esse ponto de venda, o qual praticava horários alargados (abria logo a meio da madrugada e só fechava já noite dentro) e mantinha uma clientela assídua e bastante numerosa, especialmente aos fins-de-semana. Trata-se, a meu ver, de um daqueles casos em que o conhecimento e a visibilidade são passados de boca-em-boca ao longo dos anos, sem qualquer outro tipo de publicidade que não seja a reconhecida qualidade do
produto vendido. Julgo que todas estas particularidades se mantém hoje em dia.

Há uns anos, começaram a aparecer outros cafés similares, todos eles localizados na mesma zona da cidade. Primeiro a Chaminé , depois o Silva e o Cidade Nova e acredito que com o passar do tempo irão abrir mais alguns. O que aconteceu então, no sector das Bifanas de Vendas Novas, com o surgimento desta nova concorrência? Pois o que se passou foi um facto relativamente curioso em termos económicos: o aumento da oferta provocou, numa primeira fase, um acentuado aumento da procura. A qual, aparentemente, se tem mantido desde então em quantidades estacionárias. Onde antes víamos um só estabelecimento cheio de clientes, vemos hoje (em especial aos fins-de-semana) dois ou três nas mesmas condições. Também curioso foi o facto de estas alterações terem coincidido no tempo, pelo menos em parte, com a abertura da Auto-estrada (A6) que se temia viesse retirar trânsito a Vendas Novas, com eventuais consequências negativas em termos de procura pelas bifanas. A verdade, viu-se depois, é que tal não aconteceu da forma como se previa.

Para este aumento da procura, a meu ver muito terá contribuído um facto que aos nossos olhos pode parecer irrelevante mas que, neste sector, acabou por ter a sua importância. Falo do surgimento de um novo produto, que se revelou economicamente complementar às bifanas, e que lhe veio acrescentar o que hoje se designa por uma mais-valia: as sopas. E foi o surgimento deste novo produto - sopa + bifana, ao qual acresceu a bifana-no-prato, que até aí não constavam da oferta neste sector, que acabou por trazer um novo alento ao negócio e contribuiu em muito para o seu actual estádio de desenvolvimento. À sua escala, parece-me ser um bom exemplo de como uma pequena e aparentemente insignificante irrelevante alteração na estrutura da oferta, pode provocar um substancial acréscimo na sua própria procura. Muitas vezes, o que falta é imaginação (o tal olho-para-o-negócio ) que existiu neste caso.

Este sub-sector das Bifanas de Vendas Novas, que acaba por ser um nicho de negócio muito específico no sector da restauração, já contribui a vários níveis para a nossa economia local, por exemplo em termos de emprego e de valor acrescentado. E pelo que me apercebo, ainda apresenta muito boas condições para criar apetência nos empresários locais. De modo que, julgo eu, não tardará muito até à instalação de novos concorrentes. Só não percebo porque ainda tal não aconteceu.

Uma outra possível inovação nesta área, poderia ser levada a cabo através da transposição ou do aproveitamento deste negócio para o Franchising. Seria uma iniciativa algo inovadora em termos locais, que implicaria um determinado conjunto de procedimentos junto de entidades oficiais e uma disponibilidade financeira para arrancar com esse negócio, o que naturalmente não estará ao alcance de alguns eventuais interessados. Mas que é possível levar à prática e talvez merecesse uma análise aprofundada, pelo menos ao nível de um "Plano de negócios previsional". Nestas coisas, deveremos ter sempre em atenção que os grandes negócios começam normalmente por ser pequenos e que as marcas (aquelas que o conseguem) levam tempo a impor-se. E que, além do mais, o almejado sucesso vem sempre depois do trabalho, de muito trabalho (excepto no dicionário, como já dizia o Tio Olavo do Edson Athayde).

Agora que teve a paciência de chegar ao fim desta leitura, o amigo leitor merece um prémio, razão pela qual lhe aconselho o seguinte, vá ainda hoje com a família até à Boavista, e peçam: "uma sopa e uma bifana". Hoje pago eu .... se não se importam ....

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sábado, 21 de outubro de 2006

A ribeira vai cheia

Paris tem o Sena, Londres o Tamisa, Nova Iorque o Hudson. Vendas Novas podia ter a Ribeira de Canha, mas como construíram a cidade um pouco mais abaixo, não tem rio nem ribeira.
Mas tem a Estrada Nacional 4 que todos os dias nos inunda de carros.
Eu como sou um invejoso resolvi ter uma ribeira.
A minha ribeira nasce no depósito da água e desagua na Av. 25 de Abril mesmo em frente do meu portão. Tem apenas trinta metros de comprimento e só leva água quando chove, mas não deixa de ser uma linda ribeira!

Como este Outono vai chuvoso, a minha ribeira já está ao rubro! É um espectáculo ver as areias a deslizarem para a avenida, os peões a saltitarem à volta para não enlamearem os pés, e ainda terem que saltitar um pouco mais para fugirem à aproximação dos carros… não vão levar um banho de água barrenta! A sorte deles ainda vai sendo os carros estacionados que os protegem, o que como é óbvio, me estraga a mim o espectáculo.
Mas a minha ribeira no Verão também é um regalo, principalmente pelas nuvens de pó que levantam os carros que circulam pelo seu leito, que vai seco, porque os meus vizinhos se esquecem de o regar.
Um dia, por causa do pó ainda fui à Câmara pedir que alcatroassem o leito da minha ribeira, mas o Sr. Presidente, o anterior, disse-me logo que isso era uma obra de engenharia muito difícil! Acredito que sim, e uma Câmara desta envergadura deve ter bastantes dificuldades em arranjar um engenheiro hidráulico. Acatei os argumentos e tirei daí o sentido.
Mas temo que a minha ribeira esteja condenada a desaparecer. Mais ano menos ano, vai à vida.
Já ali mora há vinte anos, e qualquer dia a Câmara Municipal vai-ma roubar.
E digo isto, porque quando eles descobrirem que só atravessando a minha ribeira é que têm acesso ao depósito da água, e quando os buracos estiverem tão grandes que as viaturas deles não possam circular, aí sim, talvez desencantem dalgum lado um qualquer engenheiro que transformará a minha ribeira num caminho alcatroado, ou calcetado, e eu perdê-la-ei irremediavelmente...
Enquanto isso, vou desfrutando do prazer de ter uma ribeira só para mim.
Até esqueço o pó que me invade a casa e o quintal, e faço vista grossa às areias e às lamas que invadem a avenida.
Faço aqui um apelo para que nenhum engenheiro aceite algum dia tarefa tão difícil para ele, e que me faça a mim perder este bem tão precioso, que é a minha ribeira!


Mourato Talhinhas
MouTal

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Vendas Novas integra Associação de Colectividades Corticeiras Europeias.
(ler a notícia)

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... sem comentários ...

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sexta-feira, 20 de outubro de 2006

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Mais de 150 artistas participam na
12.ª Exposição Internacional de Artes Plásticas


A 12ª edição da Exposição Internacional de Artes Plásticas de Vendas Novas tem inauguração marcada para o próximo dia 21 de Outubro, pelas 15 horas, no Centro Sócio Cultural.

Este ano a Exposição estará patente em dois núcleos, no Centro Sócio-Cultural e Escola Prática de Artilharia, onde estarão expostos os trabalhos de pintura, escultura, Instalação, tapeçaria, cerâmica e azulejaria. No total participam 163 artistas oriundos de países como Alemanha, Angola, Argélia, Bélgica, Brasil, Cabo Verde, Espanha, França, Sérvia, Moçambique, Polónia, Portugal, Roménia, Timor e Venezuela. Portugal será, como é compreensível, o país mais representativo, com obras do Prof. Bartolomeu dos Santos, José Santa Bárbara, Manuela Pinheiro, João Duarte, Soares Branco, entre muitos outros dignos representantes das artes plásticas no nosso país, a figurarem nos espaços da exposição.

No dia 29 de Outubro o pintor Ernesto Neves fará, pelas 15h00, uma visita guiada à exposição e haverá um programa lúdico/pedagógico destinado aos jardins-de-infância e escolas dos variados níveis de ensino.

A mostra poderá ser visitada até dia 19 de Novembro, de terça-feira a domingo, das 13h00 às 17h00.

Nota breve:
Agradecemos ao Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal de Vendas Novas, o simpático envio do texto acima e do respectivo cartaz para divulgação desta exposição. Aproveitamos para referir que o Atribulações Locais está disponível para colaborar em futuras divulgações deste tipo de eventos, designadamente os que tenham carácter cultural e desportivo, qualquer que seja a entidade organizadora, desde que os mesmos se refiram ao concelho de Vendas Novas.



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Sábado, dia 28 de Outubro, às 15.00 horas.
Auditório da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Vendas Novas
Lançamento do 2º volume de poemas de "Jodro" (João M. Grazina)
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quinta-feira, 19 de outubro de 2006

A poesia de "Jodro" no Atribulações Locais

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VISITADO PELO OUTONO
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O Outono veio fazer-me companhia
Sentou-se à mesa a meu lado
Onde escrevo na poesia embrenhado
Verdades misturadas de fantasia
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Embebidas de melancolia
Nosso sentir em pleno irmanado
E depois de lealmente nos termos olhado
Falámos da nossa sentimental poesia
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Penetrada da mesma tristeza
São os caprichos da natureza
Que assim nos decidiu esculpir
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E tristes nos dedicámos a falar
Com as folhas das árvores a tombar
O frio a chuva lá fora a cair
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João M. Grazina ( Jodro )

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quarta-feira, 18 de outubro de 2006

E por falar em obras...

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Afinal, como é? Não há mesmo ninguém a quem o vulgar cidadão possa pedir responsabilidades pela ausência, ou degradação, do pavimento que circunda a Igreja de Santo António?


Quando chove com maior intensidade é uma completa desgraça para peões e automobilistas. Os dois acessos são péssimos e os buracos parecem piscinas irregulares e traiçoeiras. Isto acontece bem no centro da nossa cidade num local extremamente frequentado.

Convenhamos que se o terreno é privado, e a intenção dos que gerem os destinos da paróquia é restringir a passagem a particulares, há que criar alternativas de acesso e estacionamento automóvel para os muitos fiéis, moradores e comércio local. Se pelo contrário, há intenção de manter a circulação livre, a paróquia e a autarquia que se acertem de vez, e mãos à obra. Nós já merecemos este "luxo".

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domingo, 15 de outubro de 2006

Comunidade chinesa em Vendas Novas: fenómeno ou globalização?

Nota prévia

Este é um texto longo. Acho que o tema o merece.

Nesta época conturbada e em rápida mutação em que vivemos, já nos habituámos a ver como sendo absolutamente normal a existência de comunidades chinesas em praticamente todos os concelhos do país, mesmo onde não seria suposto tal acontecer.

Esse fenómeno tem várias abordagens possíveis e apresenta determinados contornos, parte dos quais não irei abordar aqui no Atribulações Locais. Razão pela qual o texto seguinte tem apenas a intenção de ajudar a pensar sobre o impacto social e económico da existência desta comunidade em Vendas Novas, bem como sobre o papel a desempenhar pela autarquia. Nada mais.


Emigração portuguesa

Portugal tem sido, desde há muito, um país de emigração. Em tempos mais recentes, os destinos privilegiados foram países europeus, de que sobressaem a França, Alemanha e Suiça, especialmente nas décadas de 60 e 70 do século passado. Na sua grande maioria, esta emigração tinha por detrás razões eminentemente económicas, em face das difíceis condições de vida que então se verificava no país. Só a partir de 1974 se começou a notar um decréscimo significativo da emigração o que se deveu, por um lado, à alteração da conjuntura política em Portugal e, por outro, ao facto de os países de destino terem começado a implementar certas medidas restritivas para limitar o impacto desse fenómeno nas suas comunidades. Segundo dados conhecidos, é actualmente superior a quatro milhões o número de portugueses que vivem e trabalham no estrangeiro, sendo que aproximadamente metade estão no continente americano e uma terça parte na Europa.


Portugal como país de acolhimento

Nos últimos vinte anos, Portugal tornou-se também num destino para muitos imigrantes. Segundo defendem estudiosos nestas matérias, a manter-se o actual fluxo de imigração, é previsível que a curto prazo se atinja o número de meio milhão de imigrantes. Entre os países que mais contribuem para este fenómeno, contam-se os PALOP, o Brasil, do Leste europeu (com destaque para a Moldova, a Ucrânia, Rússia e a Roménia), da Península Indostânica (sobretudo a Índia e o Paquistão) e da China. Nos últimos anos, têm assumido particular destaque fluxos migratórios da Europa de Leste, do Brasil e da China.


Em relação à comunidade chinesa em Portugal

No que respeita à comunidade chinesa, estamos perante um fluxo migratório cuja motivação principal é de base essencialmente económica, em face das muito difíceis condições de vida (subsistem ainda situações de extrema pobreza em algumas províncias) que afectam várias regiões da República Popular da China. Os destinos preferidos dos chineses que procuram um melhor nível de vida parecem ser os EUA, o Canadá e o Reino Unido. Embora Portugal esteja entre os países de passagem, também é certo que tem aumentado de forma significativa o número de chineses a residir no nosso país. O último número oficial a que tive acesso (dados do ano 2003), referia cerca de 8400 chineses a viver em Portugal. Em termos geográficos, distribuíam-se essencialmente pelos distritos de Lisboa (2400), Porto (620), Faro (400) e Setúbal (280). O distrito de Évora contava apenas com 30 indivíduos, o que dá para perceber como os números poderão estar desactualizados. Actualmente, há quem estipule em cerca de 20 mil os chineses a viver em Portugal. E a tendência, pelos vistos, é para aumentar. Ao contrário de outras comunidades de imigrantes, por exemplo os de alguns países do leste europeu, os chineses residentes no nosso país apresentam, em média, qualificações académicas relativamente baixas.


Comunidade chinesa em Vendas Novas

Tanto quanto se pode observar, os chineses que vivem em Vendas Novas dedicam-se a negócios relacionados com restauração e lojas de produtos chineses. A sensação que dá é que se trata de uma comunidade muito trabalhadora e que também se caracteriza, pelo menos localmente, por alguma pacatez e uma certa simplicidade, ao mesmo tempo que denotam evidentes dificuldades em termos de uma verdadeira integração na comunidade local.

Os espaços comerciais em que desenvolvem as suas actividades situam-se ao longo da principal via que atravessa a cidade, o que parece fazer transparecer que a vertente imobiliária não terá sido desprezada. De facto, e de acordo com o que se sabe, a propriedade daqueles espaços estará em mãos de conterrâneos chineses. Nos casos em que os espaços comerciais são arrendados, os montantes em causa são usualmente bastante elevados.


Impactos ao nível social ...

Será que a existência desta comunidade tem algum tipo de impacto na comunidade local? Pois concerteza que sim. Desde logo porque Vendas Novas é, no essencial, uma terra de acolhimento. Que sempre aceitou quem a escolheu para viver e trabalhar. Nada indica que neste caso deva ser diferente. Trata-se, portanto, de um impacto positivo ao nível da “auto-estima local” e que nesse plano se enriquece, tal como já aconteceu com a chegada de outras comunidades ao longo dos tempos.

Por outro lado, porque com o passar do tempo e a previsível (?) (embora lenta) integração destas pessoas na comunidade local, Vendas Novas poderá ver acentuada uma das suas principais características: uma heterogeneidade relativamente pronunciada. Por outro lado ainda, porque há sempre ganhos ou vantagens sociais na troca de experiências culturais, especialmente quando tratadas ao nível local.


... e ao nível económico

E do ponto de vista da economia local, este fenómeno trará vantagens ou antes pelo contrário? Que dizem sobre isto os consumidores que recorrem aos restaurantes e lojas chinesas? E que dizem os proprietários de negócios similares já aqui instalados? E os responsáveis autárquicos, têm ou deverão ter algum papel a desempenhar nesta questão? E que diz o amigo leitor ou leitora, já pensou sobre isto? Vejamos o que em minha opinião se pode dizer sobre estes aspectos.

Comecemos por defender que, muito naturalmente, há um determinado tipo de consequência para a economia local, decorrente da existência de uma comunidade que era estranha a Vendas Novas e que passou a exercer aqui actividades económicas. Tal como qualquer outra comunidade que, nas mesmas condições, se venha instalar na localidade. Logo, o caso em análise até poderia não ter nada de particularmente preocupante do ponto de vista da economia local. Digo eu, numa primeira abordagem. Mas, vendo bem, será que não tem mesmo? Vejamos.


O importante papel regulador e preventivo dos órgãos autárquicos

Em primeiro lugar, é importante começar por reconhecer que nós devemos saber o que queremos para Vendas Novas. Ou, pelo menos, deveríamos saber. E é aqui que começa o importante papel que, também nestas questões, pode e deve ser desempenhado pela autarquia – o de criar condições para que se analise e se decida sobre que caminho se pretende para Vendas Novas, no que respeita também às políticas locais para recepção e integração de comunidades de imigrantes. As quais entroncam em políticas mais gerais de segurança e de desenvolvimento económico. Este parece-me ser um trabalho ainda não terminado em Vendas Novas, e digo isto sem querer fazer prevalecer qualquer espírito crítico.

Digo-o antes porque, desde logo, é importante percebermos que, se queremos continuar a beneficiar localmente de um clima de paz social e de segurança no dia-a-dia, torna-se vantajoso prever e antecipar a tendência local de evolução das várias comunidades de emigrantes. O que passa por algum planeamento nesta área e por levar à prática um trabalho de proximidade. Pois uma coisa é termos a viver e trabalhar em Vendas Novas uma ou duas famílias, por exemplo chinesas mas que poderiam ser de qualquer outra nacionalidade, e outra coisa é ter dez, vinte, trinta ou mais famílias.

E também não é, de forma alguma, indiferente existir apenas um restaurante chinês, como actualmente acontece, ou existirem 3, 4 ou mais. Tal como os impactos ao nível económico eram diferentes quando tínhamos apenas 2 famílias e 2 lojas de produtos chineses, em relação à situação actual em que temos 5 ou 6, irão abrir brevemente mais duas e, quem sabe? poderão no futuro instalar-se ainda mais algumas. No fundo, devemos olhar para estes fenómenos, tentar perceber o que realmente se passa e planear as melhores estratégias de abordagem da questão. Tudo está a acontecer mesmo à nossa frente, é só uma questão de nos interessarmos. O que os responsáveis não devem fazer é fazer de conta que não acontece. Quero acreditar que não é esse o caso em Vendas Novas.


Voltando à questão dos impactos ao nível da economia local

Mas afinal, dirá o leitor, todo este palavreado e ainda não disse se as lojas de produtos chineses vieram ou não concorrer com outras já anteriormente instaladas!? E se elas concorrem ou não entre si!? Bem, o leitor tem toda a razão. Vejamos, há aqui duas questões. A primeira é que só podemos defender que concorrem entre si, na medida em que a procura dos seus produtos é relativamente pouco elástica. Ou seja, a determinada altura, torna-se quase um jogo de soma nula: o que uns vendem passará a ser igual ao que os restantes deixam de vender. Se bem que, no princípio, já foi um daqueles casos em que, manifestamente e dadas as circunstâncias em concreto, a nova oferta criou a sua própria procura. Com o tempo, ver-se-á que continuarão a abrir e a fechar lojas de produtos chineses no concelho ainda que, em minha opinião, seja muito duvidosa a sua eficiência económica do ponto de vista do negócio a que se dedicam. O que, mais uma vez, até poderia merecer uma análise detalhada, mas devo dizer que não cabe no âmbito deste texto.

Em segundo lugar, só em parte se pode defender que concorrem directamente com as de outros empresários já instalados. Concorrem, mas não como se poderia pensar. Isto tem a ver com o facto de se tratar de um nicho de negócio muito específico e com as características da respectiva procura local por este tipo de produtos. A meu ver, estas lojas concorrem mais com os chamados “mercados mensais” do que com a oferta já existente a qual, aliás, se viu desde o início forçada a reestruturar os seus negócios, cessando actividade ou passando a oferecer produtos algo diferenciados. A concorrência directa existiu, portanto, numa primeira fase, com resultados muito negativos para os empresários que aqui se encontravam instalados (Lojas de Trezentos, Galinha Gorda, etc.).

Numa perspectiva estritamente económica, e tratando-se de uma economia aberta como a nossa e que queremos preservar, estamos perante situações que não têm nada de transcendente. As quais, além disso, eram relativamente previsíveis pois começaram por acontecer noutros locais do país, de há anos a esta parte. Apesar de tudo, arriscaria a dizer que os maiores impactos ao nível da economia local já se verificaram de início. No entanto, há uma “nuance” a ter em conta. É que estamos perante um espaço económico relativamente reduzido e que apresenta em média um poder de compra não muito elevado, apenas um pouco superior à média regional. Pelo que não poderemos estar sossegados, digamos assim, com a evidente tendência de aumento do número de lojas de produtos chineses em Vendas Novas. E com as respectivas consequências do aumento dessa oferta no que concerne à economia local.

Na verdade, esta tendência levará por certo ao aparecimento de outros impactos significativos na nossa pequena economia doméstica, designadamente no que se refere ao chamado Comércio Tradicional. Se até agora a concorrência destas lojas se fez, com os resultados que se viram, apenas em relação às então existentes Lojas de Trezentos e similares nada garante que, de futuro, essa concorrência não venha a alargar-se a outro género de comércio, como sejam as lojas de vestuário e calçado. Consequências existirão sempre, mais ou menos graves, depende do ponto de vista de cada observador. Ainda nesta perspectiva, seria muito interessante tentar perceber porque razões estão a abrir tantas lojas idênticas em Vendas Novas “ao lado umas das outras”. Embora não esteja na posse de informação que me permita ter certezas, creio que as razões não estarão directamente relacionadas com a economia local, mas sim com outros factores de carácter externo (deixo para os leitores esse exercício).


E que tem tudo isto a ver com a tal globalização?

Lembro-me de ter lido, há seguramente mais de 20 anos, um curioso livro de Alain Peyrefitte, que tinha sido diplomata francês na China. O livro chamava-se “Quando a China despertar” e a ideia que retenho é a de que se tratava de uma reflexão a propósito do que ele considerava ser um enorme potencial daquele país, ao mesmo tempo que se debruçava sobre os impactos significativos das suas relações futuras com o mundo ocidental. Na altura, não lhe dei a devida importância. Fiz mal, pois muito do que então li tem vindo a acontecer desde há alguns anos. E as suas consequências já se fazem notar mesmo aqui, em Vendas Novas.

O que tem isto a ver com a globalização? Tem tudo a ver. A globalização é um fenómeno que afecta, umas vezes de forma positiva outras nem tanto, diversas vertentes da nossa sociedade. E pode ser analisado sob inúmeras perspectivas diferentes. Uma delas é, desde logo, a vertente social, na medida em que a globalização intensifica as relações sociais à escala mundial de tal maneira que faz depender muito do que sucede ao nível local de acontecimentos que se verificam a enormes distâncias entre si. Até porque a própria globalização tem ajudado a alterar o conceito de distância. É exactamente este o caso em apreciação, por se relacionar directamente com a imigração chinesa em Vendas Novas.

Já na vertente económica, também se poderá defender que esse mesmo fenómeno da globalização está a influenciar a nossa economia local, uma vez que observamos localmente consequências do que se passa num país tão distante como a China. E não é só em função das actividades aqui exercidas pela comunidade chinesa. Esse, aliás, eventualmente até não será o problema maior no plano económico, pelo menos por agora. Que o digam os responsáveis de algumas das fábricas aqui instaladas perante as dificuldades que lhes são colocadas, quando concorrem internacionalmente com empresas sedeadas na China ou em alguns outros países asiáticos. Mas essa é uma outra questão.


Concluindo ...

Em resumo, quanto às lojas de produtos chineses, as quais se caracterizam, de momento, por vender produtos de baixo custo de produção a preços reduzidos, há que diferenciar o tipo de impactos que têm, ou não, na comunidade vendasnovense. Assim, em relação ao que verdadeiramente importa, são quase nulas as consequências ao nível da criação de emprego na população local, por motivos óbvios, o mesmo acontecendo em termos de criação de valor acrescentado (não acredito que este seja economicamente relevante, mas não estou a incluir a área da restauração), tal como no que respeita ao aumento da concorrência efectiva aos empresários já instalados, por se tratar de um nicho de mercado muito específico e porque, numa primeira fase, se viram obrigados a mudar de ramo. Um outro tipo de impacto e, até ver, eventualmente o mais significativo em termos futuros, dá-se ao nível do mercado imobiliário/arrendamento, mas aí com particularidades que fogem um pouco ao âmbito deste texto.

Não incluo propositadamente a área da restauração, pois a mesma merecerá uma análise algo diferenciada. No essencial, os restaurantes chineses concorrem directamente com os restantes estabelecimentos do género aqui existentes, com as necessárias consequências decorrentes desses facto. Em última análise, julgo que se trata apenas de “mais um” restaurante em Vendas Novas. Este tipo de concorrência acaba por ser algo diferente daquela que se verificou em relação às lojas de produtos chineses e teve um impacto significativamente menor.

Por outro lado, em toda esta questão não será de mais realçar o importante papel que pode e, em minha opinião, deve ser desempenhado pela autarquia, designadamente ao nível da regulação e da prevenção em articulação com as entidades nacionais existentes nestas áreas. Sem deixar de ter em conta que estamos numa sociedade e num mercado abertos, mas também em que todas as questões relacionadas com imigração, seja qual for o país de origem, passam por ter ou poder vir a ter, implicações ao nível da segurança, da paz social no interior da comunidade e da verificação de salutares condições de concorrência económica.

Por último, deixo aqui uma questão que pode parecer marginal a este assunto, mas que serve para comparação: os chamados “Mercados mensais”. Os quais, adianto já, a meu ver acarretam, pelo menos por enquanto, impactos ao nível da economia local da mesma ou de maior dimensão que o fenómeno das lojas de produtos chineses em Vendas Novas. Mas essa é igualmente uma outra questão que tenho a intenção de abordar no futuro, aqui no Atribulações Locais.

Diria mesmo o seguinte: em termos económicos, pior que os “Mercados mensais”, só mesmo o efeito combinado resultante da conjugação desses eventos com o incremento de lojas de produtos chineses em Vendas Novas. Seria, também por isso, muito interessante perceber o que desejamos para Vendas Novas, neste particular. E cada vez me convenço mais que sabemos menos do que seria desejável. O que é pena.

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