Nota préviaEste é um texto longo. Acho que o tema o merece.
Nesta época conturbada e em rápida mutação em que vivemos, já nos habituámos a ver como sendo absolutamente normal a existência de comunidades chinesas em praticamente todos os concelhos do país, mesmo onde não seria suposto tal acontecer.
Esse fenómeno tem várias abordagens possíveis e apresenta determinados contornos, parte dos quais não irei abordar aqui no Atribulações Locais. Razão pela qual o texto seguinte tem apenas a intenção de ajudar a pensar sobre o impacto social e económico da existência desta comunidade em Vendas Novas, bem como sobre o papel a desempenhar pela autarquia. Nada mais.
Emigração portuguesaPortugal tem sido, desde há muito, um país de emigração. Em tempos mais recentes, os destinos privilegiados foram países europeus, de que sobressaem a França, Alemanha e Suiça, especialmente nas décadas de 60 e 70 do século passado. Na sua grande maioria, esta emigração tinha por detrás razões eminentemente económicas, em face das difíceis condições de vida que então se verificava no país. Só a partir de 1974 se começou a notar um decréscimo significativo da emigração o que se deveu, por um lado, à alteração da conjuntura política em Portugal e, por outro, ao facto de os países de destino terem começado a implementar certas medidas restritivas para limitar o impacto desse fenómeno nas suas comunidades. Segundo dados conhecidos, é actualmente superior a quatro milhões o número de portugueses que vivem e trabalham no estrangeiro, sendo que aproximadamente metade estão no continente americano e uma terça parte na Europa.
Portugal como país de acolhimentoNos últimos vinte anos, Portugal tornou-se também num destino para muitos imigrantes. Segundo defendem estudiosos nestas matérias, a manter-se o actual fluxo de imigração, é previsível que a curto prazo se atinja o número de meio milhão de imigrantes. Entre os países que mais contribuem para este fenómeno, contam-se os PALOP, o Brasil, do Leste europeu (com destaque para a Moldova, a Ucrânia, Rússia e a Roménia), da Península Indostânica (sobretudo a Índia e o Paquistão) e da China. Nos últimos anos, têm assumido particular destaque fluxos migratórios da Europa de Leste, do Brasil e da China.
Em relação à comunidade chinesa em PortugalNo que respeita à comunidade chinesa, estamos perante um fluxo migratório cuja motivação principal é de base essencialmente económica, em face das muito difíceis condições de vida
(subsistem ainda situações de extrema pobreza em algumas províncias) que afectam várias regiões da República Popular da China. Os destinos preferidos dos chineses que procuram um melhor nível de vida parecem ser os EUA, o Canadá e o Reino Unido. Embora Portugal esteja entre os países de passagem, também é certo que tem aumentado de forma significativa o número de chineses a residir no nosso país. O último número oficial a que tive acesso (dados do ano 2003), referia cerca de 8400 chineses a viver em Portugal. Em termos geográficos, distribuíam-se essencialmente pelos distritos de Lisboa (2400), Porto (620), Faro (400) e Setúbal (280). O distrito de Évora contava apenas com 30 indivíduos, o que dá para perceber como os números poderão estar desactualizados. Actualmente, há quem estipule em cerca de 20 mil os chineses a viver em Portugal. E a tendência, pelos vistos, é para aumentar. Ao contrário de outras comunidades de imigrantes, por exemplo os de alguns países do leste europeu, os chineses residentes no nosso país apresentam, em média, qualificações académicas relativamente baixas.
Comunidade chinesa em Vendas Novas
Tanto quanto se pode observar, os chineses que vivem em Vendas Novas dedicam-se a negócios relacionados com restauração e lojas de produtos chineses. A sensação que dá é que se trata de uma comunidade muito trabalhadora e que também se caracteriza, pelo menos localmente, por alguma pacatez e uma certa simplicidade, ao mesmo tempo que denotam evidentes dificuldades em termos de uma verdadeira integração na comunidade local.
Os espaços comerciais em que desenvolvem as suas actividades situam-se ao longo da principal via que atravessa a cidade, o que parece fazer transparecer que a vertente imobiliária não terá sido desprezada. De facto, e de acordo com o que se sabe, a propriedade daqueles espaços estará em mãos de conterrâneos chineses. Nos casos em que os espaços comerciais são arrendados, os montantes em causa são usualmente bastante elevados.
Impactos ao nível social ...Será que a existência desta comunidade tem algum tipo de impacto na comunidade local? Pois concerteza que sim. Desde logo porque Vendas Novas é, no essencial, uma terra de acolhimento. Que sempre aceitou quem a escolheu para viver e trabalhar. Nada indica que neste caso deva ser diferente. Trata-se, portanto, de um impacto positivo ao nível da “auto-estima local” e que nesse plano se enriquece, tal como já aconteceu com a chegada de outras comunidades ao longo dos tempos.
Por outro lado, porque com o passar do tempo e a previsível (?) (embora lenta) integração destas pessoas na comunidade local, Vendas Novas poderá ver acentuada uma das suas principais características: uma heterogeneidade relativamente pronunciada. Por outro lado ainda, porque há sempre ganhos ou vantagens sociais na troca de experiências culturais, especialmente quando tratadas ao nível local.
... e ao nível económicoE do ponto de vista da economia local, este fenómeno trará vantagens ou antes pelo contrário? Que dizem sobre isto os consumidores que recorrem aos restaurantes e lojas chinesas? E que dizem os proprietários de negócios similares já aqui instalados? E os responsáveis autárquicos, têm ou deverão ter algum papel a desempenhar nesta questão? E que diz o amigo leitor ou leitora, já pensou sobre isto? Vejamos o que em minha opinião se pode dizer sobre estes aspectos.
Comecemos por defender que, muito naturalmente, há um determinado tipo de consequência para a economia local, decorrente da existência de uma comunidade que era estranha a Vendas Novas e que passou a exercer aqui actividades económicas. Tal como qualquer outra comunidade que, nas mesmas condições, se venha instalar na localidade. Logo, o caso em análise até poderia não ter nada de particularmente preocupante do ponto de vista da economia local. Digo eu, numa primeira abordagem. Mas, vendo bem, será que não tem mesmo? Vejamos.
O importante papel regulador e preventivo dos órgãos autárquicos
Em primeiro lugar, é importante começar por reconhecer que nós devemos saber o que queremos para Vendas Novas. Ou, pelo menos, deveríamos saber. E é aqui que começa o importante papel que, também nestas questões, pode e deve ser desempenhado pela autarquia – o de criar condições para que se analise e se decida sobre que caminho se pretende para Vendas Novas, no que respeita também às políticas locais para recepção e integração de comunidades de imigrantes. As quais entroncam em políticas mais gerais de segurança e de desenvolvimento económico. Este parece-me ser um trabalho ainda não terminado em Vendas Novas, e digo isto sem querer fazer prevalecer qualquer espírito crítico.
Digo-o antes porque, desde logo, é importante percebermos que, se queremos continuar a beneficiar localmente de um clima de paz social e de segurança no dia-a-dia, torna-se vantajoso prever e antecipar a tendência local de evolução das várias comunidades de emigrantes. O que passa por algum planeamento nesta área e por levar à prática um trabalho de proximidade. Pois uma coisa é termos a viver e trabalhar em Vendas Novas uma ou duas famílias, por exemplo chinesas mas que poderiam ser de qualquer outra nacionalidade, e outra coisa é ter dez, vinte, trinta ou mais famílias.
E também não é, de forma alguma, indiferente existir apenas um restaurante chinês, como actualmente acontece, ou existirem 3, 4 ou mais. Tal como os impactos ao nível económico eram diferentes quando tínhamos apenas 2 famílias e 2 lojas de produtos chineses, em relação à situação actual em que temos 5 ou 6, irão abrir brevemente mais duas e, quem sabe? poderão no futuro instalar-se ainda mais algumas. No fundo, devemos olhar para estes fenómenos, tentar perceber o que realmente se passa e planear as melhores estratégias de abordagem da questão. Tudo está a acontecer mesmo à nossa frente, é só uma questão de nos interessarmos. O que os responsáveis não devem fazer é fazer de conta que não acontece. Quero acreditar que não é esse o caso em Vendas Novas.
Voltando à questão dos impactos ao nível da economia localMas afinal, dirá o leitor, todo este palavreado e ainda não disse se as lojas de produtos chineses vieram ou não concorrer com outras já anteriormente instaladas!? E se elas concorrem ou não entre si!? Bem, o leitor tem toda a razão. Vejamos, há aqui duas questões. A primeira é que só podemos defender que concorrem entre si, na medida em que a procura dos seus produtos é relativamente pouco elástica. Ou seja, a determinada altura, torna-se quase um jogo de soma nula: o que uns vendem passará a ser igual ao que os restantes deixam de vender. Se bem que, no princípio, já foi um daqueles casos em que, manifestamente e dadas as circunstâncias em concreto, a nova oferta criou a sua própria procura. Com o tempo, ver-se-á que continuarão a abrir e a fechar lojas de produtos chineses no concelho ainda que, em minha opinião, seja muito duvidosa a sua eficiência económica do ponto de vista do negócio a que se dedicam. O que, mais uma vez, até poderia merecer uma análise detalhada, mas devo dizer que não cabe no âmbito deste texto.

Em segundo lugar, só em parte se pode defender que concorrem directamente com as de outros empresários já instalados. Concorrem, mas não como se poderia pensar. Isto tem a ver com o facto de se tratar de um nicho de negócio muito específico e com as características da respectiva procura local por este tipo de produtos. A meu ver, estas lojas concorrem mais com os chamados “mercados mensais” do que com a oferta já existente a qual, aliás, se viu desde o início forçada a reestruturar os seus negócios, cessando actividade ou passando a oferecer produtos algo diferenciados. A concorrência directa existiu, portanto, numa primeira fase, com resultados muito negativos para os empresários que aqui se encontravam instalados (Lojas de Trezentos, Galinha Gorda, etc.).
Numa perspectiva estritamente económica, e tratando-se de uma economia aberta como a nossa e que queremos preservar, estamos perante situações que não têm nada de transcendente. As quais, além disso, eram relativamente previsíveis pois começaram por acontecer noutros locais do país, de há anos a esta parte. Apesar de tudo, arriscaria a dizer que os maiores impactos ao nível da economia local já se verificaram de início. No entanto, há uma “nuance” a ter em conta. É que estamos perante um espaço económico relativamente reduzido e que apresenta em média um poder de compra não muito elevado, apenas um pouco superior à média regional. Pelo que não poderemos estar sossegados, digamos assim, com a evidente tendência de aumento do número de lojas de produtos chineses em Vendas Novas. E com as respectivas consequências do aumento dessa oferta no que concerne à economia local.
Na verdade, esta tendência levará por certo ao aparecimento de outros impactos significativos na nossa pequena economia doméstica, designadamente no que se refere ao chamado Comércio Tradicional. Se até agora a concorrência destas lojas se fez, com os resultados que se viram, apenas em relação às então existentes Lojas de Trezentos e similares nada garante que, de futuro, essa concorrência não venha a alargar-se a outro género de comércio, como sejam as lojas de vestuário e calçado. Consequências existirão sempre, mais ou menos graves, depende do ponto de vista de cada observador. Ainda nesta perspectiva, seria muito interessante tentar perceber porque razões estão a abrir tantas lojas idênticas em Vendas Novas “ao lado umas das outras”. Embora não esteja na posse de informação que me permita ter certezas, creio que as razões não estarão directamente relacionadas com a economia local, mas sim com outros factores de carácter externo
(deixo para os leitores esse exercício).
E que tem tudo isto a ver com a tal globalização?Lembro-me de ter lido, há seguramente mais de 20 anos, um curioso livro de Alain Peyrefitte, que tinha sido diplomata francês na China. O livro chamava-se “
Quando a China despertar” e a ideia que retenho é a de que se tratava de uma reflexão a propósito do que ele considerava ser um enorme potencial daquele país, ao mesmo tempo que se debruçava sobre os impactos significativos das suas relações futuras com o mundo ocidental. Na altura, não lhe dei a devida importância. Fiz mal, pois muito do que então li tem vindo a acontecer desde há alguns anos. E as suas consequências já se fazem notar mesmo aqui, em Vendas Novas.
O que tem isto a ver com a globalização? Tem tudo a ver. A globalização é um fenómeno que afecta, umas vezes de forma positiva outras nem tanto, diversas vertentes da nossa sociedade. E pode ser analisado sob inúmeras perspectivas diferentes. Uma delas é, desde logo, a vertente social, na medida em que a globalização intensifica as relações sociais à escala mundial de tal maneira que faz depender muito do que sucede ao nível local de acontecimentos que se verificam a enormes distâncias entre si. Até porque a própria globalização tem ajudado a alterar o conceito de distância. É exactamente este o caso em apreciação, por se relacionar directamente com a imigração chinesa em Vendas Novas.
Já na vertente económica, também se poderá defender que esse mesmo fenómeno da globalização está a influenciar a nossa economia local, uma vez que observamos localmente consequências do que se passa num país tão distante como a China. E não é só em função das actividades aqui exercidas pela comunidade chinesa. Esse, aliás, eventualmente até não será o problema maior no plano económico, pelo menos por agora. Que o digam os responsáveis de algumas das fábricas aqui instaladas perante as dificuldades que lhes são colocadas, quando concorrem internacionalmente com empresas sedeadas na China ou em alguns outros países asiáticos. Mas essa é uma outra questão.
Concluindo ...Em resumo, quanto às lojas de produtos chineses, as quais se caracterizam, de momento, por vender produtos de baixo custo de produção a preços reduzidos, há que diferenciar o tipo de impactos que têm, ou não, na comunidade vendasnovense. Assim, em relação ao que verdadeiramente importa, são quase nulas as consequências ao nível da criação de emprego na população local, por motivos óbvios, o mesmo acontecendo em termos de criação de valor acrescentado (não acredito que este seja economicamente relevante, mas não estou a incluir a área da restauração), tal como no que respeita ao aumento da concorrência efectiva aos empresários já instalados, por se tratar de um nicho de mercado muito específico e porque, numa primeira fase, se viram obrigados a mudar de ramo. Um outro tipo de impacto e, até ver, eventualmente o mais significativo em termos futuros, dá-se ao nível do mercado imobiliário/arrendamento, mas aí com particularidades que fogem um pouco ao âmbito deste texto.
Não incluo propositadamente a área da restauração, pois a mesma merecerá uma análise algo diferenciada. No essencial, os restaurantes chineses concorrem directamente com os restantes estabelecimentos do género aqui existentes, com as necessárias consequências decorrentes desses facto. Em última análise, julgo que se trata apenas de “mais um” restaurante em Vendas Novas. Este tipo de concorrência acaba por ser algo diferente daquela que se verificou em relação às lojas de produtos chineses e teve um impacto significativamente menor.
Por outro lado, em toda esta questão não será de mais realçar o importante papel que pode e, em minha opinião, deve ser desempenhado pela autarquia, designadamente ao nível da regulação e da prevenção em articulação com as entidades nacionais existentes nestas áreas. Sem deixar de ter em conta que estamos numa sociedade e num mercado abertos, mas também em que todas as questões relacionadas com imigração, seja qual for o país de origem, passam por ter ou poder vir a ter, implicações ao nível da segurança, da paz social no interior da comunidade e da verificação de salutares condições de concorrência económica.
Por último, deixo aqui uma questão que pode parecer marginal a este assunto, mas que serve para comparação: os chamados “Mercados mensais”. Os quais, adianto já, a meu ver acarretam, pelo menos por enquanto, impactos ao nível da economia local da mesma ou de maior dimensão que o fenómeno das lojas de produtos chineses em Vendas Novas. Mas essa é igualmente uma outra questão que tenho a intenção de abordar no futuro, aqui no Atribulações Locais.
Diria mesmo o seguinte: em termos económicos, pior que os “Mercados mensais”, só mesmo o efeito combinado resultante da conjugação desses eventos com o incremento de lojas de produtos chineses em Vendas Novas. Seria, também por isso, muito interessante perceber o que desejamos para Vendas Novas, neste particular. E cada vez me convenço mais que sabemos menos do que seria desejável. O que é pena.